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Carcinoma de Plexo Coroide em um Cão- Relato de caso

Por Alessandra Maria Dias Lacerda

Colaboração: Beatriz Petri Soares de Oliveira- Golden Vets  -www.goldenvets.com.br

O presente relato de caso tem como objetivo descrever as lesões com evolução para óbito de um cão por choque neurogênico devido a um carcinoma de plexo coroide localizado em região de ventrículo lateral encefálico esquerdo, com invasão no córtex parietal, núcleos da base e tálamo rostral adjacentes.

O cadáver do animal foi encaminhado para nosso laboratório para realização de exame de necropsia completo – canino, fêmea, raça Rhodesian Ridgeback, com 9 anos de idade. O histórico clínico descreve que o animal foi encontrado caído no quintal, sem outros sinais clínicos notados pelo proprietário – na internação apresentou bradicardia e quadros múltiplos de apneia, vindo a óbito na madrugada do mesmo dia da realização da necropsia.

Os achados principais na necropsia (macroscopia) foram:

  • Presença de formação irregular pouco delimitada em região esquerda encefálica dos núcleos da base e corpo caloso, obstruindo parcialmente os ventrículos laterais e terceiro ventrículo, se estendendo até o limite rostrodorsal do tálamo – exibe superfície irregular, esbranquiçada a avermelhada, de aspecto heterogêneo e consistência friável.
  • Edema e congestão pulmonar, intensos, difusos.
  • Cardiomiopatia hipertrófica concêntrica bilateral, intensa, associada à moderada dilatação ventricular direita e endocardiose intensa em válvula tricúspide e discreta em válvula mitral.

Foram também encontradas moléstias secundárias relacionadas diretamente ao quadro principal, sendo congestão sistêmica, hidropericárdio moderado e hidroperitônio discreto.

Já a microscopia da formação encefálica revela proliferação neoplásica em região esquerda de parede ventricular lateral, núcleos da base e corpo caloso, densamente celular, não delimitada, de caráter expansivo e infiltrativo, composta por células epiteliais colunares, de citoplasma moderado, eosinofílico, frequentemente claro, de limites distintos; o núcleo é parabasal, redondo a ovalado, de cromatina grosseira, com nucléolos inconspícuos. O pleomorfismo celular é discreto, com ocasional perda de polaridade, amoldamento e hipercromasia nuclear; o índice mitótico é baixo (<1 em 10 campos/aumento de 400x). O arranjo se dá em estruturas papilíferas irregulares sustentadas por um estroma fibrovascular delicado. A neoplasia oblitera parcialmente o espaço ventricular (lateral) intralesional e infiltra multifocalmente o neurópilo adjacente (córtex temporal esquerdo, corpo caloso, núcleos da base e tálamo rostral) – na região de córtex nota-se área focalmente extensa de hemorragia associada; o neurópilo cortical adjacente exibe discreto edema perivascular multifocal. O quadro morfológico da formação é compatível com Carcinoma de plexo coroide.

Também foi descrito à microscopia presença de necrose tubular renal aguda proximal intensa, difusa. 

Fotomicrografia:Observa-se proliferação neoplásica em região esquerda de parede ventricular lateral, núcleos da base e corpo caloso, densamente celular, não delimitada, de caráter expansivo e infiltrativo, composta por células epiteliais colunares, com arranjo em estruturas papilíferas irregulares sustentadas por um estroma fibrovascular delicado.

 

Fotomicrografia: Observa-se proliferação neoplásica densamente celular, não delimitada, de caráter expansivo e infiltrativo, composta por células epiteliais colunares, com arranjo em estruturas papilíferas irregulares sustentadas por um estroma fibrovascular delicado.
Fotomicrografia: Observa-se proliferação neoplásica em região esquerda de parede ventricular lateral, núcleos da base e corpo caloso, densamente celular, não delimitada, de caráter expansivo e infiltrativo, composta por células epiteliais colunares, com arranjo em estruturas papilíferas irregulares sustentadas por um estroma fibrovascular delicado.

Papiloma/Carcinoma de Plexo Coroide

Os tumores de plexo coroide são neoplasias intraventriculares advindas do epitélio do plexo coroide nas regiões ventriculares – lateral, terceiro e quarto ventrículo. No cão representam aproximadamente 7% de todos os tumores primários – são documentados esporadicamente em equinos e bovinos. São mais frequentes em cães de meia idade, com predisposição racial em Golden Retrievers, sendo mais prevalentes os carcinomas em relação aos papilomas. Grande parte desses tumores ocorrem no quarto ventrículo, com incidência decrescente em direção rostral (ventrículo lateral e terceiro ventrículo). Na ressonância magnética podem exibir imagens hipo, iso ou hiperintensas em T1W e geralmente hiperintensas em imagens T2W. O desenvolvimento de hidrocefalia obstrutiva secundária e hidromielia depende amplamente do tamanho e localização do tumor.

Macroscopicamente os papilomas são tumores granulares, de textura grosseira, circunscritos, acinzentados a avermelhados, bem delimitados da parede ventricular, enquanto os carcinomas exibem adicionalmente áreas de necrose, hemorragia e podem ser infiltrativos e aderir ao encéfalo adjacente. Os carcinomas primários do encéfalo também exibem predileção em realizar metástases ao longo da medula espinhal, meninges e convexidades cerebrais.

Microscopicamente os papilomas se assemelham ao plexo coroide normal, com projeções papiliformes sustentadas por tecido conectivo denso com um vaso central, revestidas por uma camada simples de epitélio neoplásico cuboide a colunar; as figuras de mitose são raras. Já os carcinomas mais agressivos (considerados grau III na classificação WHO em humanos)  geralmente exibem frequentes mitoses (>5 mitoses em 10 campos/aumento de 400x) , atipia nuclear, aumento da densidade celular, perda focal da formação papiliforme, necrose e sobreposição da camada célula  – invasão cerebral adjacente é dramática.

Discussão do caso

O choque neurogênico é classificado como um dos subtipos do choque – é caracterizado  pela diminuição da resistência vascular periférica e acúmulo de sangue nos tecidos periféricos causada por vasodilatação induzida por estímulos neurais. Geralmente é relacionado a traumas, especialmente quando envolvem o sistema nervoso central, mas também podem ocorrer por eletrocussão, medo ou estresse emocional – já nesse caso especificamente considera-se que desencadeador do choque foi a própria neoplasia encefálica. Essa suposição é corroborada pelos achados clínicos ante-mortem e pós-mortem. A literatura descreve que os aspectos clínicos de um paciente em choque são rapidamente progressivos e incluem hipotensão, pulso filiforme e taquicardia, todas descritas pela clínica de colega onde o animal foi internado. Já as lesões propriamente ditas são variáveis e dependem da natureza e severidade do estímulo desencadeante, sendo características as alterações vasculares acompanhadas de degeneração e necrose celular. Congestão generalizada está presente na maior parte dos casos, exceto quando há perda significante de sangue (ex. choque hipovolêmico). O edema pulmonar e presença de líquidos intracavitários podem estar presentes como um reflexo da degeneração e das anormalidades vasculares, sendo geralmente melhor evidenciados em casos que chegam a progredir para um quadro de coagulação intravascular disseminada (CID).  A necrose tubular renal encontrada também é uma lesão característica do animal em choque, pois lesões necróticas geralmente são observadas nessas células, pois são susceptíveis à hipóxia.

Somam-se como achados adicionais, que também contribuíram diretamente para o colapso sistêmico e progressão irreversível do animal em um estágio de choque, a cardiomiopatia hipertrófica concêntrica bilateral, intensa, com endocardiose atrioventricular bilateral.

Referências:

Vandevelde M., Higgins R. J., Oevermann A. Veterinary Neuropathology – Essentials of Theory and Practice: Wiley-Blackwell, 2012

Mcgavin, M. Donald e Zachary, James F. 2007. Pathologic Basis of Veterinary Disease. s.l. : Mosby Elsevier, 2007.