Por M. V. Caio Fernando Monteiro Gimenez
A citologia ocular consiste em um método não invasivo de avaliação do epitélio conjuntival e da córnea, amplamente utilizada na medicina humana, entretanto, não tão difundida na medicina veterinária, mas que pode ser facilmente realizada a nível ambulatorial.
O exame citológico do olho e das estruturas anexas é uma importante análise complementar, útil para o diagnóstico precoce de lesões, de forma menos invasiva e que precede procedimentos mais invasivos.
A citologia ocular pode e dever ser utilizada não somente para diagnóstico de neoplasias, como o melanocitoma, o melanoma ou o carcinoma, principalmente no diagnóstico de algumas doenças oculares, como a conjuntivite, a ceratite e a uveíte.
Conjuntiva
A coleta deve ser realizada por impressão (figura 1), esfoliação (figura 2) ou capilaridade e para tal pode-se utilizar: zaragatoa, espátula Kimura, lâmina de vidro, papel filtro (figura 1), escova citológica (escova vaginal) (figura 2) e lâmina de bisturi (figura 3). Pela experiência do autor, sugere-se o uso da escova citológica, pelo melhor manuseio, por não apresentar perigo ao paciente durante a coleta, pela obtenção de boa celularidade e predomínio de células íntegras. Ao entrar em contato com a conjuntiva a escova deve ser girada para uma única direção, sempre sentido horário.
Após a coleta, o material obtido deve ser transferido para a lâmina de vidro. Caso a coleta tenha sido realizada com escova citológica, o material deve ser passado para a lâmina de vidro no sentido anti-horário (ao contrário do movimento da coleta), o que garante o desprendimento das células para a lâmina.
Figura 1 – Demonstração de coleta de material colhido por impressão de saco conjuntival de um felino, através do uso de papel filtro. Fonte: HONSHO et al., 2012.
Figura 2 – Demonstração de coleta de material de conjuntiva de um felino pelo método de esfoliação, através da utilização de escova citológica. Fonte: HONSHO et al., 2012.
Figura 3 – Demonstração de coleta de material da conjuntiva palpebral por meio de raspado com a face romba da lâmina de bisturi. Fonte: RITO, 2009.
Na conjuntiva, por exemplo, os animais podem apresentar alterações degenerativas, circulatórias, inflamatórias, infecciosas e proliferativas, contudo, a citologia conjuntival é um método rápido para diagnosticar conjuntivite por Chlamydia e Mycoplasma (figura 4) e eosinofílica.
Figura 4 – A foto da esquerda evidencia pequenas inclusões basofílicas intracitoplasmáticas, compatíveis com Chlamydia. A foto da direita revela miríade de organismos granulares intracitoplasmáticos e intranucleares, compatíveis com Mycoplasma. Fonte: RASKIN et al., 2016.
Córnea
A citologia por impressão, utilizando-se papel filtro é um método não invasivo para a avaliação do epitélio corneano, mantem uma melhor preservação da estrutura celular e representa uma alternativa em relação ao raspado de córnea, que é mais invasivo. O raspado da córnea segue a mesma técnica da coleta de material conjuntival, demonstrada na figura 3.
Após a coleta, o material obtido deve ser transferido para a lâmina de vidro e encaminhado ao laboratório para análise e elaboração do diagnóstico.
A córnea pode apresentar lesões degenerativas, inflamatórias, infecciosas e neoplásicas, além das lesões traumáticas.
Humor aquoso
A citologia do humor aquoso também pode ser realizada (figura 5) e permite a distinção entre as uveítes (granulomatosas ou não), diagnóstico de neoplasias, como linfoma e melanoma, onde as células podem esfoliar para o humor aquoso e processos secundários, como uveíte anterior por peritonite infecciosa felina (figura 6).
Figura 5 – Aspiração de humor aquoso (aqueocentese). Fonte ROSOLEN et al., 2009.
Figura 6 – A. Uveite anterior em gato, decorrente de peritonite infecciosa felina e flare moderado (asterisco), que resultou na coloração amarelada do humor aquoso. B. Humor aquoso de coloração amarelada (seta preta) e líquido abdominal (seta tracejada). Fonte: RIBEIRO;SCHRODER, 2015.
O envio de fotos das lesões oculares auxilia o patologista na correlação dos achados citológicos, portanto, sempre que possível encaminhe tal material ao seu patologista e preencha a requisição com os achados clínicos e suas suspeitas clínicas.
Apesar de o exame citológico por si fornecer um diagnóstico, ocasionalmente outros testes podem ser realizados, como a biópsia, o cultivo microbiológico, testes de imunofluorescência indireta ou o PCR.
Referências
- HONSHO, C. S. et al. Avaliação comparativa de dois métodos de citologia conjuntival em felinos. Enciclopédia Biosfera, Goiânia, ano 2012, v. 8, n. 15, p. 2616-2627, 2012. Disponível em: <http://www.conhecer.org.br/enciclop/2012b/ciencias%20agrarias/avaliacao%20comparativa%20de%20dois.pdf>. Acesso em: 7 dez. 2020.
- RASKIN, R. E. Eyes and adnexa. In: RASKIN, R. E.; MEYER, D. J. Canine and feline cytology: a color atlas and interpretation guide. 3 ed. St. Louis: Elsevier, p. 408 – 429.
- RITO, I. Q. S. UTILIZAÇÃO DA CITOLOGIA CONJUNTIVAL NO DIAGNÓSTICO DE DOENÇAS OCULARES. 2009. 113 p. Dissertação (Mestrado) – Lisboa, 2009. Disponível em: <https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/1553/1/Utiliza%c3%a7%c3%a3o%20da%20Citologia%20Conjuntival%20no%20Diagn%c3%b3stico%20de%20Doen%c3%a7as%20Oculares.pdf>. Acesso em: 7 dez. 2020.
- ROSOLEN, S. G. et al. Diagnostics In: PEIFFER, R. L.; PETERSON-JONES, S. M. Small Animal Ophthalmology: A Problem-Oriented Approach. 4 ed. B. Saunders, 2009. p. 14–49.